Portugal: Quanto é que esta greve geral pode custar ao país? (via Ag. Financeira)



Contas não são fáceis de fazer. E há várias dimensões do impacto da paralisação para analisar


Se fizéssemos um cálculo aritmético simples, as contas de somar - ou melhor, de «sumir» - de quanto a greve geral desta quinta-feira vai custar ao país, chegaríamos a uns tantos milhões de euros. Mas a coisa não é assim tão linear.

Assumindo, de facto, que o Produto Interno Bruto previsto para este ano, segundo dados da Comissão Europeia, é de 171,9 mil milhões de euros podemos dividir esse valor pelos 225 dias úteis de 2011 (aos 365 dias do ano retiramos 53 sábados, 52 domingos, 9 feriados e 25 dias de férias). O resultado: uma perda de 764 milhões de euros.

Mas estas contas só podem servir como uma referência, até porque, como sabemos, a máquina não funciona só aos dias úteis. Para além disso, o grau de produtividade difere a cada dia da semana e há sectores que conseguem compensar o tempo perdido com picos de produção. Mais: não podemos partir do pressuposto que todos os trabalhadores fazem greve, porque na verdade não é isso que acontece.

«Tudo somado, o efeito é muito pequeno; não pode dizer-se que seja significativo», disse à Agência Financeira o economista João César das Neves. Isto porque «perdemos um dia com a greve, mas vamos ganhar dois no Natal e no Ano Novo» já que esses feriados são comemorados, desta vez, em fins-de-semana. É uma comparação feita a título de exemplo, mas o que o professor da Universidade Católica quer dizer é que a greve geral «dilui-se nos efeitos de calendário».

E depois, «aqueles que não têm de trabalhar vão estar mais disponíveis: vão ao cinema, vão participar em actividades lúdicas que até estimulam a economia».

Certo é que a greve vai «perturbar» outras actividades que não tencionam aderir à paralisação e assim o efeito é «muito difícil de medir». Mas «também é preciso dizer que a produção do sector público é mínima» e é este o sector que mais adere à paralisação, pelo que não se vai perder assim tanto. O real impacto será para «empresas produtivas». «Só fazem greve os sectores protegidos porque não sofrem as consequências da paralisação. Os outros não se podem dar a esse luxo».

Impacto será maior a outros níveis

Esta greve geral terá impacto sim, mas muito mais do ponto de vista social e político, do que na vertente económica, segundo o investigador do Centro de Pesquisas e Estudos Sociais da Universidade Lusófona, Luís Bento.

Sem querer fazer estimativas, este especialista disse apenas que a paralisação «traz benefícios para muitas empresas: não pagam salários». E o impacto sobre a produtividade nacional é, em seu entender, diminuto. Na função pública, que representa a maioria dos trabalhadores que costumam aderir à greve, «67% dos trabalhadores não prestam serviços aos cidadãos, prestam à administração pública», disse à AF. O impacto é grande é nesse lado da barricada.

Assim, «do ponto de vista económico não se pode dizer que terá um impacto muito grande no PIB. E não me parece razoável classificá-la como um contributo negativo para a produtividade nacional. Terá sim um impacto muito grande do ponto de vista social e político».

Luís Bento prefere concentrar-se nos benefícios desta greve, que classificou de «especial». Primeiro, vai servir para «mostrar à União Europeia que o povo português tem capacidade de indignação e grande civismo - é mais avançado do que gregos que partiram tudo e fizeram barbaridades».

Depois, «vai demonstrar a importância do diálogo social, para encontrar soluções negociáveis para o problema da economia que está a gerar desemprego e pobreza e que exige participação de todos os actores sociais».

A terceira dimensão tem a ver com facto de que, «nos últimos anos, tem havido uma enorme iniquidade na repartição da riqueza em desfavor do factor trabalho que nos colocou no último lugar do ranking da OCDE relativamente à distribuição da riqueza». Vai ser um «grito de alerta: Atenção: também cá estamos».

Fonte Ag. Financeira por Vanessa Cruz

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