Minho: Porque Braga não grama Guimarães e vice-versa...
A poucos dias de mais um derby entre o Vitória de Guimarães e o Sporting de Braga recordo um
Post de 06 de Abril de 2006, que retratava a rivalidade entre Braga e Guimarães
O
Jornal de Notícias traz consigo em todas as suas edições de Sábado um suplemento-revista que retrata os vários contrastes existentes no nosso país e grandes reportagens a fenómenos nacionais e internacionais. No passado dia 25 de Março, no nº 11, da revista "Notícias Sábado" foi emitida uma reportagem, do Jornalista Nuno Passos, que retratou a "guerrilha" desenvolvida entre dois concelhos vizinhos, Braga e Guimarães, desta tão bela província portuguesa, o Minho. Reproduzo abaixo na íntegra toda a reportagem.
ReportagemMau Minho: A rivalidade entre Braga e Guimarães tem quase MIL anos. Tentámos encontrar um consenso entre as duas cidades. Impossível. Eles não se entendem.
“
Não fale nessa palavra que eu enervo-me.” A palavra é Braga, e Pedro Araújo é engraxador há 28 anos junto ao largo do Toural, em Guimarães. “Tomo conta da muralha, só saio daqui quando retirarem a placa ‘Aqui nasceu Portugal’.” Não atende clientes “da vila das Taipas para cima”, não vai a casa dos familiares bracarense e lamenta o BI registado, sem alternativa, na Cidade dos Arcebispos. Mas o que inquieta mais este engraxador é o Vitória, o maior clube de Guimarães. “A Senhora da Penha vai iluminar-nos para não descermos de divisão.” Pedro Araújo, 42 anos, benze-se, ajeita o casaco vitoriano e mostra o cartão da claque White Angels. “Vejo todos os jogos”, acrescenta, “Só vejo branco à frente”. Em Guimarães nem as filiais dos “três grandes” entram.
Idalécio Guimarães , nem de propósito, vai mais longe. “
Se tentarem abrir uma filial, eu destruo-a.” O antigo líder da claque Insane Guys já teve o carro partido, foi sovado e ameaçado. Garante que pagou da mesma moeda. Tudo por amor ao clube e pela rixa com os bracarenses.
A bola agita as mentalidades. Guimarães tem a camisola mais cara da Liga (65 Euros), segue-se ao Benfica, Sporting e FC Porto na assistência média (14 mil pessoas contra 11,5 mil no municipal de Braga) e o número de quotas quase dobra o SC Braga.
As claques Bracara Legion e Red Boys preferem olhar para a tabela (o Braga ocupa o quarto lugar, enquanto o Guimarães está no grupo dos últimos classificados). “
Em dia de um ‘derby’ há sempre porrada, autocarros partidos e pedras a voar”, diz João Mané, líder dos Red Boys. Evandro Lopes, um dos responsáveis da Associação Bravos da Boa Luz, nascido “
mesmo na freguesia da Sé” de Braga há 51 anos, homenageou há poucas semanas o avançado Bino, um dos vencedores da Taça de Portugal na época de 1965/66.
É o único grande título de futebol do Minho. “
O futebol serve de desculpa a um micróbio qualquer que contamina o subconsciente das duas cidades”, explica. Recentemente, este gestor de crédito investigou a árvore genealógica para saber se o seu “sangue era cem por cento brácaro”. “Confirmou-se!”, diz aliviado. Anos ante, já Evandro tinha provocado os vimaranenses, ao gerir um restaurante chamado Conde D. Henrique, junto a uma das capelas da Sé, no centro de Baga.
O Imperial é o café/residencial mais antigo de Guimarães. Por aqui passaram Vasco Santana, Amália Rodrigues ou Ruy de Carvalho. Construído em 1946, é dirigido pelos irmãos septuagenários José e Domingos Gonçalves. “
Ser vimaranense é ser português e sentir o hino duas vezes”, atira José. “
Nem fica bem dizer, mas fala-se que D. Afonso Henriques nasceu em Coimbra”, acrescenta Domingos. “É um sino que toca a rebate. Estão em causa valores, tradições, a luta”, explica Amaro das Neves, director da Sociedade Martins Sarmento.
Quem estica a corda é Henrique Barreto Nunes, director da Biblioteca Pública de Braga. “Dizer que o Condado Portucalense nasceu em Guimarães é uma interpretação, embora a batalha decisiva tenha sido lá. Quando se diz ‘Aqui nasceu Portugal’, fala-se do Minho.” Para este historiador, berço da monarquia é diferente de berço da nacionalidade. Salazar é também responsável pela confusão. O ditador português desfigurou o Paço dos Duques com a ajuda de um arquitecto francês: queria dar a ideia de que num quarto dormia D. Urraca, no outro D. Afonso Henriques…
Guimarães ganha a Braga em quilómetros quadrados (241 contra 183) e freguesias (69 contra 62), mas desde 1998 que perde em número de habitantes (161 mil contra 169 mil), quando Vizela passou a concelho. Os dados são da Associação Nacional de Municípios. Curiosamente, 24 de Junho é a data do feriado das duas cidades. Guimarães “vive”a batalha de S. Mamede; Braga distribui martelinhos e alho-porro no São João.
A política é uma colisão efervescente. Há vários exemplos. Fernando Ribeiro da Silva foi o último vimaranense governador civil de Braga, mas serviu os dois concelhos com imparcialidade; a sede da Grande Área Metropolitana do Minho, agora mortiça, foi disputada pelas duas cidades; a oposição vimaranense tem pedido a autonomia do ‘campus’ universitário local nas campanhas eleitorais; o município de Guimarães não pertence à Região de Turismo do Verde Minho (RTVM), mas sim à Zona de Turismo de Guimarães (ZTG), estrutura criada pela autarquia nos anos 80, alegadamente por conflitos pessoais e receio de diferenças na promoção e acesso a verbas. Actualmente, a discórdia gira à volta do Instituto Ibérico de Investigação e Desenvolvimento, ligado à investigação em nanotecnologia. O actual Governo anunciou-o para Braga. António Magalhães, presidente da Câmara de Guimarães, e a Associação Comercial de Guimarães corrigiram a notícia. Seria “no distrito de Braga” e, por isso, integraram-no no Parque Tecnológico das Taipas (AvePark). A novela não acaba por aqui. Francisco Mesquita Machado, presidenta da Câmara de Braga, também do PS, garante que José Sócrates, primeiro-ministro, lhe prometeu “pessoalmente” o instituto para Braga. A decisão só será conhecida na próxima cimeira luso-espanhola, a realizar em Dezembro.
Os limites concelhios também divergem. A entrada do Hotel da Falperra está sobre uma divisão imaginária. O imóvel situa-se nos limites do concelho de Guimarães, mas o parque pertence a Braga. Os seminaristas, esses, dizem que a separação é na antiga cozinha do hotel. “Por casualidade política, somos de Guimarães, o que confunde os operadores turísticos, clientes, carteiros e noivos que casam aqui”, revela Susana Miranda, directora do hotel. A igreja de Santa Maria Madalena, logo ali ao lado, tem o mesmo problema. Os marcos seculares deixam as escadas do templo barroco para Braga; a Carta Militar de Portugal diz que só a sacristia é de Guimarães. Curiosamente, Mesquita Machado casou nesta igreja. Em 2003. o PS e o PSD de Guimarães exigiram a retirada do monumento do ‘site’ da autarquia de Braga. Em vão. João Lopes da Confraria da Irmandade de Santa Maria Madalena, garante que a igreja se fez virada para a cidade a que pertencia. “Seria bom pertencer religiosamente a Braga. Quinze quilómetros para tratar da papelada é um exagero…”
A polémica resvala para as salas de aula. A Universidade do Minho (UM) foi prevista para Caldas da Taipas, uma vila entre Braga e Guimarães. Mas a dissonância levou o Governo a conceder, em 1976, a reitoria a Braga e os cursos de Engenharia a Guimarães. No ano lectivo de 1985/86 houve “uma grave crise interna”, explica o antigo reitor Sérgio Machado dos Santos. Os docentes de Engenharia repudiaram a evolução artificial e menorizada do seu pólo de Azurém. António Guimarães Rodrigues, actual reitor, mantém-se a margem do debate e procura, antes, aproximar a região com projectos científicos e culturais.
Os alunos da UM, mesmo os que chegam de fora preferem viver em Braga. A capital do Minho possui o dobro dos universitários e “
há mais animação”, dizem. O propósito traje académico é polémico. Alunos naturais de Guimarães ou que estudem em Azurém recusam usar as bermudas e o tricórnio e pintam as casas de banho com essa reivindicação. A vestimenta do secular Colégio São Paulo, em Braga, foi reavivada em 1989. A Associação de Comissões de Festas Nicolinas defendeu a utilização do nicolino (capa e batina a moda coimbrã), o único traje do estudante local. A Queima das Fitas só agrava a discussão. A solução passa por entregar a Recepção ao Caloiro a Guimarães (Outubro) e o Enterro da Gata a Braga (Maio).
A HistóriaO pontapé de partida no conflito tem cerca de mil anos. O geógrafo Miguel Bandeira diz que a Carta do Condado delimitava o coute de Braga, separando desde cedo o senhorio eclesiástico (com justiça e impostos próprios) do condal. “Era um Vaticano, uma cidade-Estado.” O conde D. Henrique instalou-se em Guimarães. O clima subiu de tom com a Colegiada da Senhora da Oliveira, em Guimarães, que tinha jurisdição da Santa Sé. O arcebispo de Braga, D. Estêvão Soares, queixou-se ao Papa Inocêncio III “de os priores da Colegiada terem regalias a mais”, conta Alves de Oliveira no 36º ‘Boletim dos Trabalhos Históricos’. A Concordata de 1216 vexava os vimaranenses. D. Estêvão Soares desentendeu-se com D. Afonso II. A Colegiada aliava-se ao rei, que pediu para destruir bens do metropolita. Burgueses vimaranenses queimaram celeiros, pomares e matas. Foram excomungados. A directora do Museu Alberto Sampaio, Isabel Fernandes, lembra que até ao século XVIII diversos clérigos insistiram em visitar a Colegiada. A maioria ficara à chuva e tentava investida nocturna.
Há mais histórias dentro da História. Em 1883, o cortejo fúnebre de uma bracarense que vivia em Guimarães foi recebida à entrada de Braga por uma multidão munida de paus, que exigia que o corpo fosse levado para o cemitério num carro local. A família negou, houve pancadaria e o cadáver foi arrancado com violência. A querela reacendeu em 1885, numa sessão da Junta Geral do Distrito de Braga. Os procuradores vimaranenses José Minotes, conde de Margaride e Joaquim de Meira – explica Amaro das Neves – foram perseguidos, assobiados em enlameados e a carruagem apedrejada aos gritos de “Morra Guimarães”. Ninguém ficou ferido.
Cerca de duas mil pessoas saíram à rua, mais de um décimo da população da cidade. Em causa estava a sessão para a aprovação do curso complementar de ciências no liceu local. “As duas localidades desestimam-se de sobra para viverem unidas”, titulava um dos jornais locais. Maria Adelaide Morais, investigadora vimaranense, recorda o incidente “O meu bisavô jurou-me que a partir daí não pôs os pés mais em Braga.”
Em Guimarães, ainda em 1885, organizava-se uma marcha de protesto com archotes e uma reunião na Associação Artística. A sessão extraordinária do executivo decidiu a “
União ao [distrito do] Porto”, criando a comissão de vigilância e resistência. As casas começaram a ostentar bandeiras com a divisa “
União ao Porto”. As senhoras bordaram uma bandeira azul e branca com a inscrição “Antes quebrar que torcer” e enviaram uma representação à rainha a pedir protecção. Os bracarenses responderam com representações e reuniões contra a desanexação. O Governo fontista, por sua vez, envia o deputado João Franco a Guimarães na celebração dos 700 anos da morte de D. Afonso Henriques (6 de Dezembro de 1885). O projecto de lei de desanexação administrativa e política foi aprovado a 17 de Julho. O município ficaria sob a alçada de Lisboa até à República.
ActualidadeBraga é apelidada em Guimarães de terra dos três pês (padres, putas e paneleiros). É a cultura popular alimenta os ânimos. Joaquim Esteves, artesão, fez a estatueta ‘Três Pês’ a pedido da Região de Turismo. Recebeu dezenas de encomendas, deixando a arquidiocese à beira de um ataque de nervos. As caricaturas ainda mostram bracarenses a erguer tamancos, a comer frigideiras e a trocar o v pelo b; ou Guimarães a erguer garfos, a comer sardões ou passarinhos e a abrir as vogais.
Carlos Nunes, ourives, recorda-se dos “brilhas”, os industriais novos-ricos do calçado e têxtil de Guimarães, que entre os anos 50 e 80 reluziam com brilhantina no cabelo e carro novo. “Recusavam passar por Braga quando iam ao Norte”, acrescenta.
Durante esse período, houve imensos casamentos entre rapazes vimaranenses e raparigas de Braga. Eles, filhos de industriais novos-ricos, elas, desejadas pela beleza e prestígio intelectual. “Eu contrario o provérbio ‘de Braga nem bom vento nem bom casamento’”, diz João Guimarães, a viver em Braga há 40 anos. Este minhoto toma habitualmente o café da manhã na Confeitaria Lusitana com Emílio Lacerda, o sócio mais antigo do ABC de Braga. “
Guimarães não tem o comércio moderno de Braga”, diz um, “
Braga não tem o centro de Guimarães”, responde o outro. Há sempre uma diferença, um trunfo para ser jogado na melhor altura. Como a dos “
espanhóis” e dos “
marroquinos”.
Nos anos 90, o Vitória de Guimarães terá sido prejudicado num jogo para o campeonato de futebol. Os adeptos, furiosos, destruíram o carro do árbitro em desespero. Na jornada seguinte o clube jogou em casa emprestada – em Braga justamente. Um cartaz acompanhava os vitorianos: “
Para sermos tratados assim, mais vale sermos espanhóis.” O “
descuido” foi adaptado de imediato. Os vimaranenses, tão fervorosos pela pátria, passavam a ser “os espanhóis”. Meses depois, a retaliação contrariava a ordem geográfica: os bracarenses passavam a ser “os marroquinos”. A teima, usada em tom de brincadeira, vinca uma ironia secular.
Nota: as imagens utilizadas são retiradas da Internet e criadas por mim para retratar a reportagem.